14 de abr de 2017

CONSUBSTANCIAR

Quem já não se perguntou: Sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?
Clarice Lispector em “A hora da Estrela” 


Sempre me assustei com o modo como os robôs monitoram minhas atividades na internet. Um dia desses notei que  um anuncio passou a me perseguir. Vira e mexe ele está lá, no canto da página me tentando.   Fiquei curioso pela frase ligeiramente diferente do usual e cliquei. Li em algum  lugar que o segredo de um bom feitiço está no fraseado: "Trago teu amor por dias!"
Foi a minha perdição!

O link me levava a uma página branca onde piscava a pergunta em letras negras: Deseja alguém que está muito longe? Clique e saiba como trazer para perto de você quem deseja. Ah! E eu desejava uma em especial e muitas no varejo.

Ri diante da tela, mas cliquei. Surgiu um daqueles  apps que pedia permissões variadas. Acho que autorizei tudo sem ler, respondi o que me perguntaram como se estivesse num divã, num confessionário ou bebendo com meu melhor amigo.

Quando está navegando pelas redes sociais você sempre se questiona se tudo é real? Acho que não. Você não acredita que ao compartilhar aquela imagem que outros milhares de pessoas já compartilharam estará apertando um botão mágico que fará com que, instantaneamente, as crianças miseráveis daquele país remoto, do qual você não lembra o nome ganharão uma bolada.
Isso não faz nem cócegas na sua consciência, mas te acalma. Coisas assim te distraem e fazem parecer que no fundo, você se preocupa com algo além de sexo.

Foi o que eu pensei, ou não pensei, ao passar os números do meu cartão de crédito e comprar os serviços da Consubstanciar. Dei a eles também todas as informações que dispunha sobre o objeto do meu desejo. Minha amiga virtual, aquele ser irreal que, a Consubstanciar, prometia tornar minha por três dias. Depois, meio que esqueci o assunto.

Uma semana depois chegava ao meu apartamento uma caixa de tamanho mediano, dentro da caixa de imaculada brancura havia um pequeno botão plantado no centro de outra caixa menor. Parecia uma daquelas bonecas russas. Apertei o botão e, como nos filmes da trilogia do George Lucas,  surgiu um holograma de um homem de olhos verdes ,incomodamente brilhantes , que começou a falar comigo.

-Olá! Fico feliz que tenha aceitado nossa oferta! A Consubstanciar é uma empresa empenhada em levar felicidade e realizar desejos de homens ousados como você.

Fui me sentando vagarosamente no sofá, enquanto o CEO da Consubstanciar explicava, explicava e explicava. Depois de alguns minutos ele sumiu e ficamos  na sala apenas a caixa e eu.

Junto com a caixa recebi  um envelope que continha uma chave trabalhada em arabescos delicados. Segundo as explicações do holograma assim que eu usasse a chave e abrisse a caixa, poderia entrar num lugar preparado "fora do tempo"  onde  haveria outra porta e que ao abrir essa segunda porta eu iria ao encontro da mulher e poderia trazê-la para o quarto "fora do tempo". O CEO sugeria que eu fizesse isso quando ela estivesse dormindo, para não criar problemas na vida familiar ou no trabalho da moça. Achei a ideia boa e comecei a falar com ela sobre a possibilidade de ir buscá-la num sonho, Ela ria diante da câmera, obviamente sem acreditar. Mesmo assim achei que estava sendo mais justo alertando-a, mesmo que ela pensasse que era brincadeira, estava avisada.

 Havia ainda o detalhe de que abrindo  segunda porta da caixa, ela não teria  como recusar, nem se desvencilhar do meu "convite" e se , por acaso desistisse ela ainda assim ficaria três dias "fora do tempo", porque como advertia mais adiante o tal homem no misterioso holograma , se o comprador não desejava criar problemas para ninguém, então não deveria abrir a caixa e abrir a segunda porta, pois se o fizesse a Consubstanciar teria direito de usar da maneira que achasse melhor os três dias com a minha moça. E isso era impensável!

Tomei um belo banho, escolhi uma roupa confortável, comprei bebidas. Já era tarde da noite quando depois de alguns instantes de incerteza abri a primeira porta. Ela dava para um quarto comum de hotel, com todas as comodidades que eu poderia desejar. Havia até uma janela com vista para o mar. Olhei para a segunda porta e depois de respirar  fundo, girei a maçaneta. Quando a porta se abriu, percebi que tinha os músculos crispados. O quarto estava frio e quieto. Três passos adiante ela ressonava tranquila. Estávamos no final da madrugada.
Confesso que pensei em desistir, mas já estava ali e havia também a ameaça direta feita pelo holograma. A ideia de perder aquele tempo com ela e que outro poderia tomar meu lugar  deu-me a coragem que faltava.

O contrato dizia que ela não poderia se recusar, não havia a possibilidade de uma recusa, mas por via das dúvidas tentei não acordá-la ao pegar seu corpo leve em meus braços. Ela Abriu os olhos no limiar do mundo. "Você vem comigo, agora". Murmurei meio sem jeito e ela pareceu relaxar, atravessei o portal, coloquei-a na cama e ao trancar a porta passei a vagar as mãos pelo corpo dela, sem pressa. Perdi-me nela por três dias e guardo a lembrança de cada carícia, de cada beijo. Para ela tudo ficará confuso como um sonho. Para mim os três dias, foram mesmo três dias perdidos e ganhos ao mesmo tempo. Agora quando conversamos as trivialidades de sempre, sorrio, pois sei que estive nela e com ela.

Num canto qualquer  minha consciência resmunga frases antigas, tagarela sobre ética, violação de direitos, livre arbítrio. Eu a afogo numa dose de Jack Daniels e volto a pensar no gosto dos beijos e do prazer de ter sua língua em meu falo.

A empresa parece adivinhar minha fraqueza moral e não para de enviar propostas de pacotes promocionais. Mais cedo ou mais tarde, vou comprar. Sei disso! Mas vou planejar melhor. Gostei desse acesso irrestrito. Quem não gosta de ter tudo sob controle? Pedirei dez caixas, cada uma delas com apenas 24 horas, afinal não sou mais nenhum menino. Para cada caixa uma mulher diferente, como disse antes tenho muitos desejos e se os djins da consubstanciar tem fome sou uma ótima fonte de alimentar.
Depois penso onde isso tudo vai me levar.