17 de mai de 2018

Encanto numero 19


ando na linha
cortando paradoxos
perto dos abismos

corro atrás
d’um sismo
d’um vento torto
d’um sopro na nuca 

d’uma mágica
encanto de outro mundo

p’ra abrir as asas
içar velas
 pular noites e dias

virar ocasos em alvorada
 acalmar tempestades

escuta?

grilos
 pirilampos
borboletas
gentes

falam das cismas
 caixas e encaixes

prenso a respiração na entrelinha
esforço p’ra soprar neblina

Não fiz nada e hoje já é ontem!

sem querer,
quase noite
nuvens magenta
arrastam- se

olhos insones

corri desastrada
tropecei no vestido
rendado de promessas

 queria voar ou nadar

 era tão tarde ou tão cedo
 o salto quântico ninguém viu

a terra seguiu girando
naquele ocaso por acaso

 era quase noite
nuvens magenta

tantas!
Imensas!

atrás do tempo,
tempo que vinha

dias a fio enfastiados
 desta tarde inteira

acaso sem fim
a lua escorrega

chegou quando dormia
e desaba na noite que caía

dentro dos espelhos
avessa e cansada
dos futuros que entrevia

visagens inúteis
numa tarde qualquer

cacos de riso pelos cantos
rasgando a pele diáfana
 e a luz respinga por aí


pinta retalhos rendados
na pele nua do tempo,

tempo que vinha
tempo que foi sem ter sido

fechamos os olhos
driblamos a escuridão
dentro dos espelhos
visagens inúteis
numa tarde qualquer
que o breu comia

27 de mar de 2018

Pouso forçado




Sombra sentada sobre mim
Passagem para a melancolia
Tristeza discreta
Quase sem avaria

Nessa fase conformista
Dentro dos conformes
Liguei o modo avião

Funciona?
Não sei ao certo
Conto quando aterrar

Olho as ondas e marolas
Revoltas brandas
Céus de brigadeiro

Todo dia um golpe
Um soco na boca da alma
E, pelo canto do olho assisto
Outra conquista estuprada
Quem liga?

Aperte os cintos

Não olhe pra baixo
Não se afogue
Não se queixe
Não desabe

Esqueça o goblin
Amarre o incubus

Desacelere lá vem a pista!

15 de fev de 2018

Iriene Borges


12 de fev de 2018

Ingenuidade congênita





Tenho em mim essa alma tola
Guardada e afivelada

Engulo cinismo em cápsulas 
Sandice em ampolas

Doses diárias

Amenizam minha tolice rara
Mascaram essa coisa atávica

15 de dez de 2017

A Natureza do Jogo




Sabe? Alguma coisa não fecha, alguma coisa não bate quando penso nela e, ao contrário do que pensa a maioria, conviver com a telepatia é um peso infernal. O que eu não entendo é como posso sentir falta do que não conheço? Não deveria doer. Afinal não era real ou era? A dor é incrivelmente real. Sinto falta das conversas. Do entendimento mágico que, provavelmente, nem acontecia. Dessa amizade quase palpável.

Tenho me sentido péssima. Penso nisso o tempo todo. Ninguém aparece para conversar até tarde da noite. Ainda assim quando chega a noite ligo essa máquina infernal e fico aqui banhada por essa luz espectral esperando por um sinal qualquer. Que não vem.

Estou longe pra me fazer ouvir, na verdade nem sei se quero mesmo falar com você. O que ficou foi a idéia que fiz de você. Inatacável, perfeita e inatingível. Como você agora. Ficamos no quase, na esfera das possibilidades e eu preciso ser sensata e deletar você da minha vida também. Eliminar essa lembrança de um momento que não existiu. Hoje vou tentar seguir em frente, um passo por vez.

Levanto da cama ligo o notebook e escolho uma playlist aleatória. Começo a ver as notificações e e-mails atrasados quando um anúncio aparece ao lado. É uma receita de bolo. Sorrio com o timing perfeito dessas máquinas. Resolvo cozinhar e vasculho a dispensa: farinha de trigo, bicarbonato de sódio, sal, cacau em pó, leite, limão, essência de baunilha, açúcar, açúcar mascavo, manteiga sem sal, ovos e chocolate meio amargo. Arrumei tudo sobre a mesa e comecei a trabalhar. Focada na receita.

Peneirei a farinha, o sal e o bicarbonato. Misturei o cacau e a água morna até ficar homogêneo. Misturei o buttermilk, a água e a essência de baunilha. Liguei a batedeira, bati a manteiga com os açúcares até ficar levinho. Com a batedeira ligada, adicionei um ovo de cada vez e bati até a massa ficar fofa. Adicionei à mistura de cacau com a batedeira em velocidade baixa, depois a mistura de farinha, alternando com a mistura de buttermilk, sendo três adições de farinha e duas de buttermilk, começando e terminando com a mistura de farinha.

Incorporei o chocolate ralado e joguei a mistura na forma para assar por mais ou menos 45 minutos. Foi quando percebi a música que eu estava acompanhando sem querer.
Pleased to meet you
Hope you guessed my name, mm yeah
But what's puzzling you
Is the nature of my game, mm mean it, get down
Tell me baby, what's my name
Tell me honey, can ya guess my name
Tell me baby, what's my name
I tell you one time, you're to blame

Olhei para trás e lá estava ela: Vésper. Era assim que ela se apresentava em nossos encontros virtuais. Eu sorri. Ela sorriu e sussurrou: Saudades sweetie?
Eu permaneci meio tonta e confusa e muda. Como? Você me chamou sweetie.
Chamei?
Huhum. Como?
Devil’s Cake, Simpathy for the devil?
Foi por acaso.
Nada , acredite, nada é por acaso!
Quer dizer que eu te invoquei?
Sim, invocou!
E você é o demônio ou um deles?
Não sweetie:EU SOU O PRÓPRIO.
Fiquei olhando para os seios que apontavam sob a camiseta de malha branca. Ela sorriu. Você realmente acha que alguém denominado “estrela da manhã” liga para gêneros?
Ela sentou numa das cadeiras cruzou as pernas longas e cantarolava: Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
(Who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
(Who who, who who)
Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's confusing you
Is just the nature of my game