28 de set de 2017

jabuticaba




sonhei-te hoje
num susto acordei
saltei para o escuro

caí nessa lonjura
nesse engodo
nesse muro e te juro
que tudo ali parece perto

vi uns anjos sem asa
sopraram esse teu papo
essa conversa meio à toa

pontos fortes
nortes
mortes

a luz me mostrou o dia
não tinha anjo

minto

tinha um
que tem asa

mergulhado
numa garrafinha

cachaça de jabuticaba

feito sacia apreendi
esse diabinho distraído

redemoinhos sonolentos
tampa frouxa e tudo escapa

é dia

a magia esvaída na mesa
acaba sonhos e conversas

7 de set de 2017

vórtices




Vaga e oca ela observa os vórtices no céu claro estendendo dedos alongados e fantasmagóricos procurando por ela. Encolheu-se um pouco na poltrona quando um deles passou mais perto ,sentiu  a energia mas suspirou  sabendo-se protegida e invisível. Avançava em direção àquele lugar que já está começando a considerar um lar. Seu coração estava apertado e ela instintivamente apertava o medalhão que trazia escondido sob a blusa. Os cabelos avermelhados pelas longas horas passadas sob o sol, caíam em cachos espiralados sobre seus ombros nus.
Parou um instante a cabeça encostada ao volante, as nuvens pareciam um rebanho de ovelhas em fuga, bordadas num azul intenso e luminoso sem pensar muito no que fazia ela o procurou. O olhar fixado na direção que ele havia escolhido como sua, vasculhou os ventos em busca de um sinal de sua presença, mas nada encontrou. Ele sabia se esconder tão bem quando não queria ser encontrado que a busca era inútil. Ela desistiu.
Fechando os olhos podia rever a menininha curiosa e ansiosa que ela um dia foi sendo guiada pelos pais até o mestre. Ainda podia ver o sorriso dele, ainda sentia o gosto da ansiedade e do medo que sentiu no primeiro beijo. Podia sentir a raiva que sentira quando ela a mandou embora. Estava tudo ali guardado em suas lembranças, escondido entre seus sonhos.
Abriu os olhos e perdeu-se na observação da estrada e em vigiar o vórtice que se aproximava. Precisava fechar-se também, bloquear todos os canais e afundar no mar de pensamentos corriqueiros para que nem mesmo ele a encontrasse.
Podia sentir que estavam perto, perto demais. Não pretendia voltar, não podia mais negar quem era por isso estava voltando, para reaprender, refazer os caminhos e no processo reencontrar a si mesma. Nunca aceitou muito bem os métodos dele, nunca falaram exatamente a mesma língua exceto na cama.
Lembrava-se de uma discussão com o amigo, numa manhã de primavera. Estavam deitados na grama os pés descalços mergulhados na água fria do lago.
— Não seja tonta — disse caçoando — Ninguém em sã consciência renega esse poder! Você mesma não renega completamente, andou pesquisando e treinando não foi? Arrancou de mim toda a informação que podia e eu te ensinei o melhor que pude!

Ela sentiu-se de novo inundada pela raiva. Poderia ter se afogado nela. Ela não escolheu, apenas aceitou os fatos. Havia aprendido muito, tornara-se eficiente deixando de ser distraída, embora ainda fosse crédula e muito descuidada com sua própria segurança é verdade, mas ainda assim muito capaz.
— Eu não preciso de vocês. Nem de você nem de ninguém. Eu só preciso... Acreditar em mim mesma e posso perfeitamente viver sem isso!

Ele gargalhou e pondo-se sobre ela, prendeu seu rosto entre as mãos e deu-lhe um beijo.

— Você é pura magia, mesmo que não use seu maldito medalhão. E eu preciso de você, vem morar comigo? Quebro meu medalhão se você disser que sim e até compro o maldito carro se quiser, embora voar seja bem mais rápido e eu sem minha mágica perca metade do meu charme e me sinta a mais desprotegida das criaturas eu faria isso por você!

— E as pessoas ainda te acusam de ser manipulador? Que injustiça! Você é o rei dos manipuladores! —ela o beijou sem pressa. —Você está certo é tolice minha... Não consigo imaginar você num carro comigo.

A lembrança se foi assim como ela o abandonara há muito tempo, junto com outros pequenos sonhos.


31 de ago de 2017

Lira


O grupo cortava a noite fria numa formação compacta. Risos,afagos e beijos alternavam-se com doses fartas de cinismo e sarcasmo. Dois deles pareciam mais eufóricos, embora rissem e falassem num tom mais baixo. Minha menina os observava séria e calada demais. No princípio era apenas o trabalho de sempre: Observar, registrar e inspirar  Mas então algo mudou e passou a se concentrar naquele mortal específico. Acompanhava ansiosamente seus passos.As moiras haviam me alertado para o fato de que ela já havia consultado o destino daquele poeta e pelo menos duas vezes tinha perguntado sobre as interseções e em como poderia mudar esse ou aquele traçado. A obsessão dela estava desequilibrando o grupo. Tália distraia-se em imitar os trejeitos do rapaz. Terpsícore não dançava entretida em observar o homenzinho que tanto interessava sua irmã. A serena Polímnia cochichava preocupada com a disciplinada Melpômene. Euterpe que parecia entender a obsessão apenas sorria. Calíope, mais recolhida e pensativa, era quem mais se preocupava. Calíope nunca tinha visto Erato tão impaciente e ao mesmo tempo tão atenta a um mortal, até a distraída Urânia sempre distraída em medir o orbe com seu compasso, percebeu a estranha atitude da irmã. Todas agora seguiam o mortal ao mesmo tempo em que esperavam para ver o que ele faria. O sorriso era largo e radiante. Daqueles que não deixam esconder que algo muito bom havia ocorrido. Soubessem, então, que uns dias antes aquele rosto era fechado, que estava sempre cerrado e preocupado, que os olhos vasculharam o chão enquanto a alma buscava o céu; soubessem o quanto a monotonia e a tristeza incomodavam… Mas não contavam mais os dias de tristeza, de preocupação e solidão compulsivas. O que era uma vida de noite comparada àquela noite de luzes? O sorriso era pouco, e não expressava tanto assim. Ah... os dias que viriam pela frente é que diriam mais, e muito mais. Conhecera Rebeca da forma mais casual, apaixonaram-se num esbarrão e trocaram beijos por telepatia. Em dois dias conversavam como se fossem amantes de longa data; amantes sim, porque já segredam o status de apaixonados em cada pequeno movimento. Ele era Augusto, e ela Rebeca, e ambos se sabiam seus. O terceiro encontro foi fatal. O que era apenas conversas e olhares se derramou no jantar, na casa de mulher solteira e decidida. Foi beijo tragado em vinho e sexo posto à mesa. Carícias e promessas que não precisavam ser cumpridas que duraram até o café da manhã, quando saiu de dentro dela para sorrir aquele sorriso que abriu esta história. Da porta à rua com lembranças de beijo e aquela necessidade louca de encontrar um pedaço de papel. Precisava escrever o que aconteceu , o que havia em Rebeca e como o mundo ganhara cor. Mas, engraçado – não conseguia puxar a inspiração. Os passos batiam contra a calçada sem fazer eco algum e aquele monte de sensações pareciam bastar. Abriu a porta de casa e a caneta não o chamou a escrever; pelo contrário! Decidiu que o dia estava bonito demais para perder tempo na folha branca. Tomou um longo banho, vestiu-se, ligou para uma amiga fiel e abandonou à escuridão do esquecimento o instrumento que o diferenciava aos olhos dos deuses.

12 de ago de 2017

vermelho




O espelho nunca reflete direito o cataclismo que é esse buraco na alma, sumidouro de estrelas que se espalha em flores de bolor nas paredes úmidas. Ontem pensei em cortar os cabelos, mudar a cor do esmalte, do batom,emagrecer, engordar, comer ou jejuar. Mudei de ideia e dividi beijos mortos para selar as frinchas desse umbral mas a voragem rugiu árida. Outra estrela apagou-se com a aurora. Deixei que riscasse a pele das coxas. tatuagem vermelha, feitiço fugaz.



Imagem : ©2010-2017 Sum1Good

2 de ago de 2017

Amarras de papel



Tudo, sempre, começa e termina aqui no meu colo.
Tudo que nos enreda em tramas de fios delicados de densidade variada.
Não tenho certezas apenas arrumo grandes e pequenas sabotagens.

São intencionais mas não parecem ser.
Amarras de papel presas aos pulsos pálidos.

E um cansaço imemorial. Tudo que fiz me prendeu e termina por te aprisionar .
E ele jamais se culpa , jamais! Pega cada erro e os arremessa em meu colo
Cansada amarro perdas, persas, pedras, lágrimas e lembranças. Tudo encadeado.

Vi ontem marcas de lágrimas fantasmagóricas desenhadas na pele.
Lágrimas que guardadas transbordam. Desdenham dos meus segredos.

Rios secos. Fantasmas dantescos.

Cubro com arte e parte delas fica. Tudo fica
Agora mesmo recolhi algumas e forjo poemas
Penas, trancos, barrancos, covardias e corajosas bravatas