10 de out de 2016

Acordei



Acordei. Meus olhos aos poucos se habituando ao lusco-fusco daquele fim de tarde, fim de domingo, fim de um sono de dois dias. Das janelas do quarto de paredes nuas eu podia ver a chuva caindo. Faz calor, apesar da chuva, um calor sufocante. Ouço o som da televisão ligada no outro apartamento, algumas vozes abafadas e o tilintar da chuva na cobertura a garagem. O telefone toca e eu tateio tonta em busca dele. Atendo. Não morri afinal. 

– Alô.

Minha voz me parece surpreendentemente firme.

– Oi. Esqueceu?

– De que?

Pergunto enquanto levanto meio trôpega e nua.

– De mim.

– Parece que sim.

– Vem me ver?

– Pode ser.

– Quero te ver.

– Sei que quer. Apareço depois.

Desligo sem esperar resposta. Lá fora tudo me parece calmo e ameno como a paisagem de um filme ou de uma fotografia antiga. A chuva parece fresca. Nua e tonta, caminho pelo apartamento abafado e mortiço. O calor torna meus movimentos ainda mais pesados. O telefone toca de novo. Deixo tocar. Olho para a cartela de comprimidos vazia, para a meia garrafa de martíni e penso que devia ter calculado melhor. Não estou mal e também não estou bem. Meu sorriso refletido no espelho parece quase convincente, pareço calma e tranquila, nada em mim diz: “tome conta de mim” ao contrário pareço pronta para cuidar de tudo e todos. O telefone toca e eu ignoro. Um banho rápido e me visto rapidamente também. Camiseta branca, minissaia, tênis, algum dinheiro no bolso e nada mais. A cidade parece vazia e estranha, quase tão vazia e estranha quanto eu. Caminho sem pressa através da chuva fina, quase invisível. Preciso andar para afastar o torpor que a mistura de Martíni e comprimidos tinham deixado. Era quase engraçado, não morri, mas dormi por dois dias e ninguém notou, nem ele. Toco a campainha. Ele abre a porta sorrindo e sem falar me beija. Não penso,não falo,deixo-me beijar, deixo-me levar. Não morri. Ele nem percebe meu torpor, meu vazio.Percebe?

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