30 de abr de 2017

fissura



“Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo, mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.”




pequena fissura 

desfia a malha
remendo


     uma 

                     duas 
                                    mil vezes

misteriosa e confusa

teia de seixos
que me enrola

a fissura eu escondo

e me enreda
sob o disfarce de um sorriso

             uma 

                         duas   
                                    mil vezes

escrevo bilhetes plenos

vastos de segredos claros
de novo e de novo
amasso o papel

bolas compactas
rolam nos cantos do quarto



*citação Caio Fernando Abreu