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10 de jul. de 2012

Poema que o Raimundo Lonato fez pra mim:


Para Rosa Cardoso
...

Sibilas teus segredos,
tal como as serpentes,
enroscam-se em nuvens.

As feras, afiam as garras;
asas e dentes, apartam-se
dos corpos dormentes.

Rosam versos nos lábios;
desencantam-se  as fadas
vendo o voo dos pássaros.

Amolecem os dedos dos sátiros
 nas  sombras saltam palavras
  segredos desatam laços
na boca larga dos mitos.




12 de dez. de 2010

Desculpe-me Rosalie Anderson! (Para Rosa Cardoso)

¨

Sentia-me ansioso ao aguardá-la ali entre cotovelos de algumas dezenas de pessoas. Era chegado o dia de conhecer uma das minhas poetisas prediletas que estava vindo à São Paulo unicamente para conhecer seus amigos escritores.
Aliás, o meu estado ia além da ansiedade já que ardia em meu peito uma alegria quase juvenil que fez-me revoar e regredir aos meus 14 anos. Resguardadas as devidas proporções, era como se me devolvessem o tempo e a admiração quase santa que nutria pela professora de francês no meu 4º ano ginasial. “Saviez-vous que je vous aime, ma chère?” - ela costumava dizer-me à saída das aulas, sempre aos beicinhos e de uma meneira que eu gostava de supor provocante.
Talvez os seus olhos amendoados e o belo par de pernas por debaixo de suas saias sempre justas, aliados ao meio palma acima do joelho me causassem certo pânico. No fim das contas um “oui” era a única resposta que eu lhe tinha antes de ganhar a balburdia dos corredores. – Deuses jamais estariam sujeitos à profanações - Era a resposta que me dava para cada de suas insinuações, brincadeiras ou não. Lógico que conspirava contra mim o respeito que por sentia pela dona Catarina, principalmente diante do fato dela ter sido minha professora desde o 1º ano daquela série.

Contudo tal referência pouco ou nada tinha a ver com a poetisa que eu aguardava. Todavia a mesma excitação que me causara aquela frase em francês me acompanhava ao esperá-la na ala de desembarque do Aeroporto Internacional de Congonhas. Conforme o combinado eu não me esquecera nem mesmo da placa com o indicativo “Véio China” para lhe facilitar o reconhecimento.
Repentinamente o saguão é tomado por outras dezenas de pessoas que portavam em mãos máquinas de fotografar e filmadoras profissionais. “Nossa! O que poderá ser?” questiono-me ao ver aquele bando se infiltrando entre nós, deixando-nos ainda mais espremidos uns aos outros. Um pouco mais de correria generalizada e os “clicks” das suas máquinas podiam ser ouvidos à centenas.

Os flashes espocavam como se querendo iluminar aquele início de noite de um calor modorrento. Repentinamente ela surge no saguão interno, linda, glamurosa, espetacular. Uau! Era para ela todo aquele aparato?
Evidente! La estavam os paparazzi à sua caça.


E isso me deixou feliz. Contente ao presenciar o fato que sua poesia havia galgado os horizontes impostos àqueles que pretendam se tornar celebridades. Galgado degraus que nem mesmo eu sabia vencidos. Todavia sentía-me incomodado; E se perguntassem a ela quem era aquele o senhor de barba branca e óculos negros com um “Veio China” escrito em letras irregulares num folha de papel cartolina? Eu me pressentia tão insignificante diante daquele aparato que retornei à mesma conclusão dos tempos de ginásio – Deuses jamais estarão....... – Murmurei a antiga cantilena e abaixei o cartaz – Talvez ela nem tivesse me percebido ali –
Porém ela me percebera sim! Tanto que veio sorridente ao meu encontro.

-Nice to meet you. You seemed very nice! – Ela disse à queima roupa – Permaneci estático. Mas por que estaria falando o inglês – Ensimesmei.

Eu não sabia o que se passava por debaixo daqueles cabelos sedosos e de um perfume delicioso. Esnobismo, talvez? Não! Impossível! Jamais lhe percebera tal ranço. Em todo o caso eu não podia ser-lhe indelicado, então lhe respondi num sorriso tímido:

-Sim! Você também é tão ou mais simpática e bonita que em suas fotos de Orkut -

-What? Orkut? what has this to do? – Ela rebateu.

Eu não entendia exatamente o porquê daquilo. Ainda mais que os paparazzi avançam e uma nova sessão de fotos se iniciava. Eles berravam, urravam, gemiam:

-Please, Andie MacDowell, join the old man! Please! – Rogavam num inglês que se pretendia ser perfeito.

-Andie MacDowell? Jesus Cristo, ela é a Andie MacDowell? - Balbucio estarrecido. Então tudo me fez sentido ao relembrar suas fisionomias e os traços dos rostos e sorrisos. - Como eram parecidas! – Concluí abismado.
  E surpreso eu sentia os cotovelos dos paparazzi nas minhas costas e aquilo me incomodava. Eles que fossem à puta que pariu! Malditos paparazzi! Eu não precisava daquela corja pedindo para a senhora MacDowell que posasse ao meu lado, ou melhor; ao lado de um velho decrépito– “Abutres sensacionalistas! Quanta falta de respeito!” – Indignei-me e regurgitei para eles.

Contudo o surrealismo daquilo me faz olhar à volta e perceber o enorme equívoco que eu cometera:

Eu tinha ido parar no setor de desembarque dos vôos internacionais, quando de fato deveria estar na ala dos nacionais. Olho para o relógio – “Meu Deus! Numa hora dessa ela deve ter desembarcado” Disse-me apreensivo

-What? – Novamente questiona lady MacDowell sem entender o que eu falara para aqueles idiotas.

Eu tentava me desvencilhar dela e da multidão enquanto lady MacDowell insistia nos olhares sem que eu entendesse os seus motivos; parecia que ela se afeiçoara à mim. Talvez a minha feição lhe fizesse lembrar o pai, o tio, o avô, ou mesmo algum velho amante dos seus autoflagelos, coisa muito comum entre os artistas carismáticos. Em todo caso eu não tinha tempo para poder descobrir. Olhei para Andie, pego em suas faces e lhes faço mimos enquanto lhe dou o meu melhor sorriso de agradecimento.
Em seguida estico o pescoço e dou um terno beijo-lhe na testa. Ela aceita comovida e fecha os olhos como se fosse aquilo fosse uma espécie de um cerimonial na entrega do Oscar. Antes de ir estaciono em seus expressivos olhos castanhos esverdeados e procuro esmerar no meu sofrível inglês:

- Andie! His eyes are wonderful. And you're a talented actress and success. However, there is poetry in his eyes - Falo mansamente para que me compreenda sem enganos.

Ainda ouço-lhe um outro dos seus “what” enquanto sigo em disparada para o setor de desembarque nacional. Eu estava atrasado com o meu encontro com a poesia.
Eu não mentira para Andie. Havia enorme beleza em seus olhos, no olhar da atriz de sucesso. Contudo, não havia poesia neles.
  E ainda mais porque não haveria MacDowell que me detivesse no prazer de encontrar uma de minhas poetisas favoritas. E como estava mais que atrasado, corri ainda mais. Esbaforido e em bicas de suor chego aonde deveria estar desde o princípio. 
Olho para os meus pés que latejam dentro do tênis e percebo em minha mão a placa com o meu nome adormecida na altura do joelho. Encho-me de bravura e levanto o cartaz enquanto procuro a pessoa com o olhar. Súbito, por trás de mim sinto um toque no meu ombro esquerdo. Viro incontinenti.

-Velhinho safado! Eu já tinha te visto! Nem precisei da placa! Reconheci pela barba e os óculos escuros! – Ela exclama divertida. Cansado do jeito que estava só consegui responder um “Pois é” Porém ela queria falar, demonstrar felicidade de estar ali e o seu ótimo senso de humor:

-Aposto que se eu fosse a Andie MacDowell você já estaria me esperando na 1ª fila há mais de meio século! – Sussurra a sorridente Rosa Cardoso com a voz bem próxima ao meu ouvido. Nós sempre brincáramos com aquela coisa dela se parecer com Andie MacDowell. Porém ela não sabia da missa um terço!

Então eu apenas ri. À princípio, discreto, divertido. Depois, espalhafatoso e em largas gargalhadas. Surpreso, as pessoas que passavam permaneciam nos olhando, aliás, mais à mim que a ela.
E Rosa Cardoso apenas continuava sorrindo, sorrindo, sorrindo.... sem nada entender.




Copirraiti 2010Dez

Véio China©

26 de mai. de 2009

Feitos para mim.






A Rosa e as Moiras (Para Rosa Cardoso de Heloisa Galves )


Um jardim de flores imenso!
Detinha - de quem o visse - todos os horizontes
Cloto, Láquises e Átropo; as Moiras
Apareceram como sempre itinerantes
Errantes, “errantes”...

Concordaram que a humanidade
Não merecia tal diversidade
Assim Átropo amolou a tesoura
E depois de um breve divagar
Flores inexistentes começou a abortar.

-Flaquéias pra quê?
Trifânios e Radúzias,
Cambirinas matutinas,
e tantas flores meninas,
jamais hão de florescer!

Cortou as que tinham menos perfume,
Aquelas muito finas,
As com tez de gelatina
Aquelas com muito veneno,
As com folhas demais, as com folhas de menos...

Sobrou do jardim imenso...Apenas uma flor...
Cloto bronqueou:
- Átropo! A Rosa! Vai deixar que ela fique?
E num sorriso maroto assim esclareceu:
-Essa vou poupar, será mãe de todas as outras.
Dos poemas e das músicas
Será que se esqueceu?

-Sem a Rosa, o que seria de Chico e Cartola?
Ary e Pixinguinha?
Vinícius, Juan Guerra?
E o resto da galera?

-Não tecemos o destino de flores,
estamos aqui de enxeridas,
flores me dão enjôo,
com todas essas pétalas!
Mas se não fosse a tal da Rosa...
O que seria dos poetas?


__________________________

Noites de chuva
...


No ritmo da chuva, ponho-me a pensar...
Queria ser o mar
Para te banhar e acalantar
Queria ser o vasto chão
Para matar a tua ânsia, nesta vasta solidão

E se você disser que foi por amor
Não irei negar!
Pois eu só queria ser o macio
De galanteios de bandido
Nesta nossa solidão noturna
D’onde exala a prece,
Diante de nossos segredos...

Reinvento sobre a lua e a terra
A nossa essência grata da alma
Que nos deixa sempre em fuga
De nós mesmos...
Destas nossas mentiras diversas
Em que disfarçamos nossos desejos...

Nesta constelação de porte
Não somos os senhores da redenção
E muito menos, os da pureza!
Somos o deserto de algum lugar
Em nossa própria catedral
De solidão secular
D’onde nós, nos encontramos...

Gota a gota de nosso palácio temeroso
Flameja através deste teclado
Como se fossem das asas de uma borboleta
Que dança sobre o vento
Através dos mistérios do mundo
Sobre o fogo eterno
Dos nossos sonhos e visões

Dentre o nascer do dia
E a espera do anoitecer
D’onde nem queríamos perceber
Esta ação bélica de coalizão
De anseios e recordações
Sorrateira a superfície da alma
Em que nós rasgávamos as nossas bandeiras
Subindo aos céus, sem as cordas para nos segurar

Hoje, então, como pobres deuses
D’onde temos que apagar as luzes
Para calar a voz
Que não nos deixa encontrar a paz
D’onde circulam as longas carabinas
Que nos reconhecem

Digo-te!
Estou longe de chegar
A ser o colibri dourado
Nesta minha superfície livre
De crise e temor
Sou apenas uma simples flor
De folha lírica em meu fado
Que cai sobre ti.


Fernando A. Troncoso Rocha


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Mais de Rosa (Ruy Villani)


Rosa me pousa.
Não ousa.
É leve como borboleta
E me alimenta como seio
Da mãe preta.

Rosa me tranqüiliza
E desliza entre meus dedos
Permeia e enfrenta meus medos
Me conhece mais que eu
Mesmo me conheceria.

Rosa é mais que irmã, mais que tia
É a soma das razões de crer
Em algum ente, em algum ser.

Rosa, apelido de flor
Daquelas estigmatizadas
Mas Rosa, essa Rosa
É o encontro de estradas
A antítese da bifurcação.

Pois dedico tais palavras a essa Rosa
Deveria ser em prosa, que é meu modo recorrente
Mas essa Rosa da gente
É poema em si. Não há opção.

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Um poema para Rosa (Ruy Villani)

Jamais será uma prosa
Jamais fugirá à temática
Nem em teoria,
Quanto menos na prática.

Um poema bem singelo
Que mostre apenas o elo
Que nos torna mais que ilustres
Desconhecidos, entre achados
E perdidos, meras almas afinadas.

Quantas rimas, até então desperdiçadas
Foram necessárias a esse entendimento,
Quanto se abusou do momento
Até que este se tornasse simples e natural

Um poema para Rosa, não a prosa
Pois que ela se alegra dos versos
E assim me entende, quase metrificado
Mas livre, a ponto de ser lido,
Entendido e confirmado.

Meu poema para Rosa, não é prosa
É um ato agradecido
E em versos atestado.