18 de mar. de 2026

Public Confession (Restricted)

Public Confession (Restricted)

Logbook of Insanity No. 100326
02h05 — Entre a noite e o dia


Você sabe como acontece o amanhecer?

Começa com um momento onde tudo parece suspenso em uma fina camada de silêncio. Onde tudo anda na ponta dos pés. Até que algum pássaro mais sensível percebe que a luz mudou e avisa os outros.

Então não vem um alarido dos pássaros, nem o peso do sol sobre os lençóis.

Vem a lenta subida da minha alma das profundezas de um oceano de nada, denso e prateado, onde a pressão do silêncio era a única coisa que confirmava a existência de um corpo.

Hoje acordei com essa sensação de que morri.

Nada faz sentido.

A luz que entra pelas cortinas entreabertas não é luz; era uma claridade clínica, uma luz esquisita, que desenhava listras pálidas sobre a pele, onde a poeira dançava em suspensão — como minúsculas almas negligenciadas por um deus distraído.

E tenho um gosto de cobre e de tempo esquecido na boca, uma secura que remetia à febres de passados esquecidos na gaveta, àquele momento preciso em que o ar se tornou um artigo de luxo e a respiração, um ato de resistência desesperada.

Ao sentar-me na borda da cama, o mundo parecia uma fotografia mal revelada, uma sobreposição de realidades onde os móveis eram sólidos o suficiente para o toque, mas desprovidos daquela vibração vital que os ancorava ao presente.

A sensação era a de ser um intruso em uma casa que já não me reconhecia, um fantasma que vestira a pele de outro, mas que sentia, sob o tecido fino da camisola, o frio de um vazio que não era físico.

O silêncio da rua, outrora preenchido pelo caos humano, agora ecoava como o interior de uma catedral abandonada, onde cada batida do coração soava como uma profanação.

Era como se a grande peneira do destino tivesse passado pela Terra e, por um erro de cálculo ou uma ironia cósmica, eu tivesse escorregado pelos vãos, permanecendo nesta margem estéril enquanto o resto da caravana seguia para um destino que o meu olhar já não alcançava.

Cada movimento era uma coreografia de sombras; os dedos, ao tocarem a face, buscavam a aspereza da vida, o calor do sangue que corre sob a superfície, mas encontravam apenas a suavidade de mármore de quem atravessou o fogo e saiu dele não consumido, mas petrificado.

Onde a vida deveria pulsar com a urgência dos desejos e a crueza dos conflitos, havia apenas esse buraco de nada, uma ausência que se assemelhava à liberdade, mas que trazia o peso insuportável da irrelevância.

Se a morte é a ausência de testemunhas, então estar ali, naquele quarto banhado por uma luz mortiça, era o ápice de uma transição inacabada.

A sensualidade do mundo — o cheiro do café, o toque da brisa, o som de uma voz — tornara-se uma memória tátil, algo que se observa através de um vidro espesso, desejando a dor apenas para sentir que a membrana entre o "eu" e o "mundo" ainda não havia se rompido definitivamente.




Mudei o que dava para mudar e ainda estou presa no mesmo lugar.

Andando em círculos.

Ou serão espirais de fumaça?


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